E se o personagem se rebelar?


Monólogo de um mau marido

Ela não aparece faz muitos dias, deixou-nos aqui em suspenso desde a última vez que trabalhou neste conto. Ficamos cercados por essa sua mania de destacar a última palavra do parágrafo incompleto com a marca amarela do editor de texto. Não bastasse a falta de ações, ainda a decepção de encontrar essa barreira espalhafatosa tornando insolúvel o nosso conflito. Este borrão me traz a impressão de um amontoado de escombros depositados na estrada, interrompendo nosso trânsito.

Não sei o que houve. Talvez ela não tenha conseguido resolver a forma como apresentará o sofrimento e a complexidade dos personagens, ou pode simplesmente ter desistido do conto. Desagradável é ficarmos neste vácuo; ao menos para mim a condição é muito incômoda. Sobre os sentimentos de Alice não posso afirmar muito.

Segundo o tanto da história que ficou armazenada neste arquivo de poucos bytes, o emprego vai bem e não há indícios de problemas com minha saúde. De incomum, apenas a inércia desmedida com minhas insatisfações. Desconheço se haverá algum segredo terrível a ser desvendado no final, mas o trecho oferecido à apreciação dos leitores – se houver algum – não dá sustentação para meu gênio instável, tampouco justifica a total falta de ânimo que ela me atribui, especialmente nos fins de tarde.

Espero ainda ser surpreendido pela escritora, mas enquanto ela não volta, sou forçado a repisar o diálogo azedo com minha mulher. Seu nome é Alice (o meu sequer existe nessa ficção), ela tem menos de quarenta anos, é apegada a seus bichos de estimação e gosta de cozinhar para os amigos, mas temos poucas pessoas para elencar na categoria. Minha esposa diz que me falta o hábito de demonstrar afeto e admiração, reclama do quanto sou suscetível a alterações de humor, ciumento e desconfiado. Mas isso é puro exagero da autora, se ela me desse um pouco mais de voz, poderia apresentar outras facetas de cada picuinha narrada. Entretanto, não posso acusá-la muito duramente porque ao invés de descrever-me como a encarnação do marido relapso ao longo de todo o texto, me fez entrar na narração  provocando o riso divertido de Alice. Devo reconhecer também que, na hora da briga, minha resposta à reação superlativa de Alice foi pacífica.

O conto (ou novela ainda não posso ter certeza) começa quando chegamos em casa comentando as rabugices de uma vizinha de quem não gostamos. Mas as coisas mudam bruscamente quando, durante o jantar, a conversa se perde nos becos do passado. Um comentário à toa, sem maldade intencional, sobre a amiga com quem dividia apartamento nos tempos de faculdade provocou um áspero silêncio em minha mulher. Diferente de outras discussões que tivemos, ela não disparou seus argumentos, terminou de comer sem apetite, mastigando ressentimento. O costume de revisar seus passos é vício contra o qual não luto, mesmo com as repetidas evidências de sua inutilidade – de fato não tenho encontrado razões para repreendê-la em nada – e com o qual ela parece acostumada, só de vez em quando é que se debate um pouco, cada vez mais silenciosamente. Em meus pensamentos de personagem cerceado por esta narrativa interrompida prevalece a necessidade difusa de me certificar de sua conduta a todo momento.

No passado tivemos muitas discussões por conta da minha vigilância, mas desta vez, como não houve bate boca, autora aproveitou para inserir um longo flash back das tormentas de Alice. A mim não foi dado ainda o espaço da defesa. Quem sabe quando a moça regressar à digitação?

Refazendo o percurso do texto até a mancha amarela onde ele desemboca, examino minha postura – não fui estúpido, grosseiro ou flagrantemente indelicado – então, embora reconheça o inoportuno da fala, me parece desproporcional a crise provocada pelo comentário sobre sua profissão anterior e sua colega. Também pode ser considerada incoerente, por um leitor mais apresado, a tristeza denotada pelo meu jeito de deixar os olhos perdidos na copa das árvores desse parque que avistamos da janela de nossa sala bem decorada. Mais um pouco e essa escritora colocará idéias de suicídio em meu entardecer.

Chego mesmo a pensar nessa possibilidade, pois sem poder seguir para além desse borrão amarelo, circulo na repetição do sofrimento supérfluo que minha mulher desfila pelos cômodos. E bastaria uma pequena mudança na frase colocada no meio de nosso jantar para modificar completamente o enredo.

Se a autora deseja impacto, subtexto, dramaticidade, poderia escolher outra alternativa. Por que não algum fato surreal? Algo para provocar susto, mas não angústia. Ou então, ela poderia se satisfizer em relatar o cotidiano de um casal sem desavenças, o convívio quieto, contente com a boa saúde. Seríamos adultos anistiados dos deveres impostos pela procriação e aguardando o embranquecer dos cabelos, e tomaríamos vinho na casa arejada, sem nos preocuparmos com os conflitos no oriente médio. Acaso isso não poderia render algo digno de nota na literatura? Ela que se esforçasse por extrair valor da banalidade.

Mas ao contrário disso, essa mulher prefere fazer com que Alice reclame da falta de confiança sem dizer palavra alguma, obriga minha esposa a pensar nisso enquanto lava a louça do jantar mal degustado. Minha pobre mulher amarga o acúmulo dos pequenos incidentes sem importância durante o banho, esquecendo-se até do cuidado com o corpo ainda tão atraente – sua pele fina resseca com facilidade pelo excesso de temperatura da água e nesses dias de desencontro ela nem toca nos seus cremes de cheiros tão macios. Nas mãos dessa escritora, cuja vida ignoro, fico sendo este homem amargo para quem basta ouvir uma lembrança de épocas menos tranqüilas e logo se instala em suas entranhas a convicção de ter sido traído, torpemente enganado.

Não fiz a conta de quantas vezes já repeti o trajeto da primeira à última palavra desse retalho de história, alternando os pontos de parada. A impotência de não poder alterar as ações, as vírgulas, os termos, me deixa à margem da fúria. Vejo Alice ofender-se e afundar num humor taciturno – ela fechou a cara e foi fazer suas coisas e eu fiquei ali parado no meio da sala – e quero me explicar, mas não posso. E mesmo que a escritora volte, haverá algo para ser explicado?

É possível que ela mude muitas coisas nesse emaranhado de mal entendidos; que ela reconsidere o tom de algumas de nossas divagações, mas o caso é que, quando fechou o arquivo e foi cuidar da própria vida ou de outras histórias inacabadas (e há muitas nessa mesma pasta em que estou aprisionado com meu casamento em ruína), não deixou sequer uma pista dos planos que tinha para nosso desenlace – se é que os tinha realmente.

Espio pela janela dessa página impalpável e tento encontrar consolo nos outros textos inconclusos (as histórias acabadas ela deve armazenar em outro local do computador, aqui não há nenhuma) e me canso com esta circularidade, assim como me perturba a impossibilidade de comunicar-lhe o inoportuno de algumas de suas invenções para nossa existência.


Sobre Maurem Kayna

Maurem Kayna é Engenheira Florestal, baila flamenco e é apaixonada pela palavra como matéria-prima para a vida. Escreve contos, análises sobre a auto publicação e tem a pretensão de criar parágrafos perenes.

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