O conto da aia, Margaret Atwood


Uma distopia presente

Se pensarmos no tanto que há de 1984 (George Orwell), Admirável Mundo Novo (Aldoux Huxley)  e 1985 (Anthony Burgess) no nosso cotidiano, o Conto da Aia se torna ainda mais assustador. Aliás, ele é mesmo tão estarrecedor porque as situações narradas não precisam see imaginadas em um futuro indefinido, muitos dos absurdos vivenciados pela protagonista e outras personagens mulheres do livro já acontecem hoje, as vezes em tons mais amenos, mas frequentemente no mesmo nível de intensidade. Ditaduras vinculadas a correntes religiosas existem (leiam Perséfone e comparem o Irã dos anos 70 com o o atual!), países onde mulheres não tem nenhum direito também existem, a crueldade de mulheres com outras que vivem uma condição distinta da sua não é ficção.

Muito provavelmente a maior parte das leitoras (e digo assim no feminino porque mesmo que os leitores homens se sensibilizem com as desventuras de todas as mulheres da narrativa, terão dificuldade de entender o que é sentir na pele algumas das situações narradas)  enfrenta uma leitura entrecortada de pausas e angústia. O livro todo é aterrador, não porque apresente um cenário sanguinário  – ainda que haja cenas de violência, a fonte de agonia pulsa mais forte justo onde o silêncio imposto molda os movimentos e decisões das personagens.

A aia, cujo nome não saberemos porque todas as fêmeas potencialmente férteis perdem o direito a um nome próprio para serem referidas como uma propriedade de seus comandantes, é quieta e passa pela mesma patrulha moral que tantas mulheres em nossa sociedade enfrentam.

Há um ponto crucial da narrativa, quando a aia recorda o momento em que as as mulheres tiveram seus direitos caçados e conhecemos a reação do seu parceiro.  Trecho para reler e repensar muita coisa.

Distopias, porém, também tem poder de trazer lampejos de esperança. Nesta obra, esse sopro vem da força que o tempo exerce sobre as civilizações, tornando-as cíclicas, suportavelmente finitas e do poder da amizade. A potência que o afeto sempre pode nos insuflar é um alento.


Sobre Maurem Kayna

Maurem Kayna é Engenheira Florestal, baila flamenco e é apaixonada pela palavra como matéria-prima para a vida. Escreve contos, análises sobre a auto publicação e tem a pretensão de criar parágrafos perenes.

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