Um conto feito de pressas e perdas


Este foi o conto premiado no II Concurso Literário da Revista Piauí e foi publicado na edição número 36 da revista.

Trânsito

Eu deveria ter trazido o impermeável. Agora tenho de ouvir esse sujeito com mania de pai fazendo gracejos enquanto veste a capa: Mudemos o uniforme; e já! Senão vai todo mundo se gripar. Uns riem, outros passam reto.

Rezo baixinho para conseguir terminar as entregas antes do aguaceiro e chegar cedo para arrumar a bagunça antes da Paula chegar. Ela vai levar um susto bom.

Muitos sinais fechados no caminho, e justamente hoje que não estou interessado nas cenas do trânsito. Tinha pressa, queria fugir do mau tempo e organizar a casa para a Paula. Geralmente gosto de ver a reação das pessoas quando se percebem observadas – alguns tentam disfarçar, outros ignoram e seguem no ritmo de antes e já houve até um senhor irritado que baixou o vidro para dirigir a mim os xingamentos que distribuía aos filhos. Mas hoje não quero dissecar retalhos da privacidade alheia, quero escapar da chuva.

O sinal manda parar, mas a faixa de pedestre está vazia, como a calçada, nada para assistir. Reduzo e obedeço. À direita, uma camionete importada dirigida por um sujeito que fala no telefone e fecha a passagem da moça do carro branco. Ela, nem tão moça assim, não baixou o vidro para desacatá-lo, mas acelerou, desviou e seguiu adiante enquanto o amarelo avisava que eu e o cara da camionete não conseguiríamos.

Alcancei o carro branco no semáforo seguinte. Ela usava óculos escuros grandes, elegante, mas séria demais. Aliás, séria não, triste. Vi que estava chorando quando levantou os óculos para secar as lágrimas. Não estava com a maquiagem borrada porque não usava nenhuma. Qual seria o motivo daquele choro doído, sem caretas? Tive vontade de saber, talvez pudesse até dizer alguma coisa que ajudasse.

Aquele chorar quase doía. A Paulinha não era assim discreta e normalmente chorava por razões pequenas, porque se o caso fosse sério ficava muda. Mas essa moça não tinha expressão de desespero, raiva, medo. Apenas não continha as lágrimas, e elas rolavam, grossas. Não mordia o canto do lábio nem franzia a testa.

O verde acende, mas já chegou a chuva e ainda faltam duas quadras para fazer a última entrega. E agora, vencida a tarefa, lamento a distância do carro branco, já impossível de distinguir no engarrafamento que vai se formando.

Em casa, tiro a roupa molhada e planejo movimentos eficientes para colocar a roupa na máquina, estender as cobertas na cama, lavar a louça. Enquanto isso, o pensamento mistura a mulher do choro quieto e a surpresa que imagino em Paulinha quando encontrar tudo arrumado. Mas percebo que já está tudo em ordem. Nem as revistas em cima do sofá desmentem a organização e isso me faz acordar dos devaneios da tarde, fingindo que não seria inútil a correria para chegar mais cedo.

Desabo no sofá, junto com as revistas que não tive vontade de ler, pensando no guarda-roupa, agora tão espaçoso sem as roupas dela. O peito se encolhe e penso em cantar qualquer coisa, apenas para ouvir minha própria voz e esquecer a despedida.

Será que se já tivesse acontecido a cena da moça chorando no trânsito eu teria entendido algum gesto da Paulinha antes que ele se formasse, antes do limite dela ter virado malas fechadas?

Este foi o conto premiado no II Concurso Literário da Revista Piauí. Não foi escrito especificamente para o certame, mas era o texto disponível mais propício à adaptação que exigia o encaixe da frase “Mudemos o uniforme; já” do conto Eficiência Militar, de Lima Barreto.


Sobre Maurem Kayna

Maurem Kayna é Engenheira Florestal, baila flamenco e é apaixonada pela palavra como matéria-prima para a vida. Escreve contos, análises sobre a auto publicação e tem a pretensão de criar parágrafos perenes.

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